
Queria muito que Paulo Freire estivesse vivo, queria muito conversar com ele sobre seu livro Professora sim, tia não (cartas a quem ousa ensinar), gostaria de mostrá-lo a realidade atual, onde crianças pedem “Tia, posso te chamar de mãe?”. Bem, se outrora ele afirmava que chamar professora de tia era uma armadilha ideológica, chamar professora de mãe é o que?
Em seu livro Paulo Freire afirmou:
“A tentativa de reduzir a professora à condição de tia é uma “inocente” armadilha ideológica em que, tentando-se dar a ilusão de adocicar a vida da professora o que se tenta é amaciar a sua capacidade de luta ou entretê-la no exercício de tarefas fundamentais. Entre elas, por exemplo, a de desafiar seus alunos, desde a mais tenra e adequada idade, através de jogos, de estórias, de leituras para compreender a necessidade da coerência entre discurso e prática; um discurso sobre a defesa dos fracos, dos pobres, dos descamisados e a prática em favor dos cambados e contra os descamisados, um discurso que nega a existência das classes sociais, seus conflitos, e a prática política em favor exatamente dos poderosos.”
Eu constantemente desafio meus alunos através de jogos, histórias, leituras, tento fazê-los entender até onde vai a fantasia e onde começa a realidade, sou chamada de tia sim, poderia até chamá-los de sobrinhos, seria mais suave do que chamá-los alunos porque, para quem não sabe, aluno = sem luz , pois é "formada pelo prefixo a-, que significa negação, e pelo elemento lun-, adulteração de lumen, luminis, do latim, que significa luz"... E, por significar "ausência de luz", a palavra é "pejorativa, depreciativa, ofensiva, antipedagógica", e outros palavrões... Mesmo havendo uma vertente que acredita que na verdade o substantivo alumnus, por sua vez, deriva do verbo alere (alo, -is, alui, altum ou alitum, alere. Informações citadas para quem sabe consultar verbo em dicionário latino). Significados do verbo alere: 1. Alimentar, nutrir (sentido próprio e figurado). (Cícero: obra De Natura Deorum). 2. Daí: fazer crescer, desenvolver, animar, fomentar (sentido próprio e figurado). (Cícero: obra Catilinárias) – Fonte: a mesma acima citada. A palavra já existe em latim (muito antes de Cristo...): alumnus, alumni, substantivo masculino da segunda declinação. 1. Sentido próprio: criança de peito. Sentido empregado por Cícero, na obra Verrinas. 2. Daí, sentido figurado: discípulo. Sentido empregado também por Cícero, na obra De finibus. – Fonte: FARIA, Ernesto. Dicionário Escolar Latino-Português. MEC, 1962. Prosseguindo.
Bem, não importa qual a origem etimológica, não somos gregos e tampouco temos aulas de latim, o que importa, ao meu ver, é a significação dada atualmente e aluno = estudante, assim como tia = professora. Embora para os pequenos o significado de tia seja realmente de tia... Em 2008 eu tive um aluno que me surpreendeu, era chegado o período de férias escolares (o recesso do meio do ano) e conversei com a turma que ficaríamos alguns dias sem nos vermos. Esse aluno, Marcos Vinícius, perguntou: “Tia, então a senhora vai lá em casa brincar comigo?” Eu disse: “Não meu querido, eu vou ficar na minha casa e você na sua, vamos tirar férias uns dos outros, voltaremos cheios de saudades e novidades pra contar! Além disso, eu nem sei onde fica sua casa...” Ele disse: “Claro que sabe, você é minha tia!”. Eu disse: “Não Marcos, eu sou sua professora, não sua tia!” Ele disse: “É sim, você é minha tia!”. Eu disse: “Não meu bem, eu não sou irmã do seu pai, nem da sua mãe, sou apenas sua professora!”, ele com lágrimas nos olhos: “ Mas mesmo assim você é minha tia!” E me abraçou como se pedisse “Diga que está só brincando, você é minha tia!”. Naquele dia eu soube que para as crianças pequenas a função de professora realmente se confunde com a de tia. Conversei, então, com a turma toda em “rodinha”, fizemos uma árvore genealógica de cada um (oralmente) e eles viram que eu não faço parte da família de nenhum deles, mas pediram “Mesmo assim podemos te chamar de tia?” e a resposta foi “Claro que sim!”.
Também em 2008, na escola em que eu fazia dupla regência um outro aluno, Michel, perguntou na hora da “rodinha” : “Tia, por que a senhora não arruma um emprego?”, eu dei uma risada e disse: “Mas Michel, eu tenho um emprego, meu trabalho é esse aqui, eu sou professora, eu dou aula pra vocês todo dia!”, ele disse: “Não tia, eu não to falando de ficar aqui brincando com a gente, to falando de um trabalho de verdade. Igual minha mãe, ela dá faxina e passa roupa na casa dos outros!”. Então tive de trabalhar as diferentes profissões, o que cada profissional faz... Mostrei pra eles as coisas que aprenderam comigo e com as outras professoras, quem embora nossas aulas sejam divertidas (e esse também é nosso objetivo), que nosso objetivo, como professoras, não é apenas cuidar deles, brincar com eles, mas ensinar-lhes muitas coisas (letras, palavras, numerais, contas, coisas sobre a natureza, a pátria, o mundo...)!
Na verdade, nem sou tia de verdade ainda, só tenho uma irmã e ela ainda não é mãe, está com casamento marcado para o ano que vem, mas pretende fazer muitas coisas ainda antes de ser mãe, então ser tia de verdade só Deus sabe quando serei... Enquanto isso vou sendo “tia” dos meus alunos! Sou “tia” desde os 14 anos, quando fiz meu primeiro estágio, quando era uma normalista idealista...
Trabalhar com criança pequena, como já disse em outro artigo, é muito divertido!
Eu amo o que faço!
Bibliografia:
FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d’ água, 1997.
http://www.revelacaoonline.uniube.br/ombudsman/aluno.html