terça-feira, 27 de outubro de 2009

Resumo do livro de Içami Tiba: DISCIPLINA, LIMITE NA MEDIDA CERTA

TIBA, Içami. Disciplina, limite na medida certa. 67 ed. São Paulo: Editora Gente, 1996.


Resumo

Içami Tiba depois de inúmeras palestras sobre o tema Disciplina escreveu Disciplina, limite na medida certa, onde aborda o assunto de forma leve, mas ponderando sempre que a responsabilidade de impor limites e tornar uma criança disciplinada é dos pais.

São os pais, através de suas atitudes e gestos, que irão influenciar de maneira direta na educação e na disciplina das crianças. Se eles forem indisciplinados...

Desde a concepção os pais já têm a responsabilidade de serem disciplinados. Se a gravidez foi indesejada, ou prematura já pressupõe-se uma indisciplina grave: o desejo, ou instinto sexual superou a racionalidade da escolha de um método contraceptivo eficaz. E sendo assim a indisciplina foi do casal, e não de um só, pois houve a concordância de ambos.

A disciplina do casal influi ainda mais a partir do nascimento da criança. Quanto mais próximo do nascimento, mais a criança segue seu ritmo biológico – e a disciplina deverá obedecer a esse ritmo, não o inverso. Um dos ritmos mais importantes estabelecidos desde os primeiros dias de vida, é o da alimentação, porque depende da interação com a mãe ou com a pessoa que a substitui.

A alimentação da criança pequena é também um momento de disciplina. É através da amamentação que a mãe transmite o modo de ser da família (“como-somos”), e isso é essencial para ajudar o filho a formar seu ser psicológico, pois a criança trás ao nascer apenas seu ser biológico (cromossomos).

O pai deve ter muita saúde psicológica para participar do gesto da alimentação, que tem imenso significado no gesto afetivo. Afinal, a criança não precisa só de leite.

O leite alimenta o corpo. O afeto, a alma. Criança sem alimento fica desnutrida. Criança sem afeto entra em depressão.

Orientando-se pelo ritmo biológico da criança a mãe erra menos. Quando seu bebê chorar ela deve – antes de lhe oferecer alimento – verificar se este choro é motivado por algum desconforto como dor, frio, calor. Assim a criança não será habituada a compensar com alimentos qualquer necessidade sua no futuro, podendo vir a se tornar um adulto que busca na comida o alívio para suas ansiedades. Embora o alimento como mecanismo de compensação seja um assunto muito mais complexo, a raiz da obesidade pode residir aí.

Bem nutrida, cercada de afeto, a criança cresce e por volta de um ano de idade já é capaz de realizar algumas façanhas. Começa a andar e logo estará correndo. Mas para chegar a este ponto ela cairá algumas vezes. Cair é, para ela, um acontecimento novo. Precisa aprender o significado daquilo, por isso sua primeira reação, antes de chorar, é olhar para a mãe. E a mãe o que faz? Se a mãe se apavora e demonstra isso, a criança percebendo seu pânico vai deduzir: cair é perigoso. Mas se a mãe agir com naturalidade: “Caiu, ah, caiu” ou “Pulooou!”, e ficar olhando para a criança com expressão boa, tranqüila, enquanto espera que ele se levante sozinha, a criança se levantará sem choros, sem traumas.

O que a maioria das mães não entende é que as crianças de um ano de idade não se machucam quando caem sentadas. Se nós adultos, cairmos, será um desastre, porque a musculatura está toda rígida. As crianças não se machucam porque caem “molinho”.

É muito comum vermos crianças que quando caem se a mãe (ou outra pessoa) lhe vem levantar esta lhe bate ou empurra como que diz: “Eu me viro”. Quanto mais forte for o tapa ou empurrão, mais a criança está se sentindo incomodada com a “ajuda”.

Ao levantar a criança que não quer ser erguida, a indisciplina ocorre porque a mãe faz valer sua própria interpretação, em vez de certificar-se primeiro dos desejos da criança.

Por excesso de zelo, muitas mães acabam por desrespeitar a criança, tornando-se umas indisciplinadas.

É preciso respeitar quando a criança troca a expressão de curiosidade por um olhar sério. Mães indisciplinadas desrespeitam seus filhos quando ignoram essa diferença e lhes impõe suas vontades.

Colocar a criança no colo de um desconhecido ou mesmo alguém da família que a criança não vê há muito tempo, e forçá-la a ficar no colo dessa pessoa mesmo chorando e esperneando é uma agressão. Mas a mãe e o pai acham que não tem nada de mais aquele tio, primo, vizinho pegar a criança pequena no colo e que logo, com paciência, aquele colo estranho se tornará a familiar e a criança acabará por se acostumar àquele desconhecido. Isso acontece porque a criança é movida por uma disciplina biológica que está sendo quebrada pela euforia do amor. Mas, felizmente a grande plasticidade psicológica que existe em um relacionamento saudável permite que ela supere o desrespeito por parte dos pais.

Quando os pais não respeitam a disciplina biológica da criança (enfiando comida em sua boca quando ela está sem fome; mandando que fique quieta desnecessariamente; insistindo que fique no colo de um estranho, mesmo que este pertença a família; lutando para que ela durma na hora em que querem, mesmo sem estar com sono etc), ela reage. Quanto mais velha for a criança mais elaborada será essa reação. Mas, quando a criança reage é muito comum a mãe passar por cima desta reação e continuar lhe impondo sua vontade, configurando assim um abuso de poder por parte da mãe que é maior em tamanho e em capacidade de argumentação. À criança resta engolir suas reações para não desencadear a ira materna.

Nesse jogo de ação e reação, algumas crianças acabam por se demonstrar mais rebeldes. Desde pequenas não aceitam esse tipo de imposição, demonstram força de ego. E, na falta de outros recursos, recorrem àquele que mais conhecem: a birra/ pirraça.

A birra é uma ruptura no relacionamento. Por meio dela o birrento impõe a outra pessoa uma condição “Se você me atender, ótimo; caso contrário, vai sofrer muito”. Trata-se de um estado psicótico de comportamento em que se nega a razão para fazer prevalecer uma vontade. O interessante é que a meta escolhida, a grande motivação da birra, é um capricho, uma vontade desnecessária. Ninguém faz birra porque não quer estudar. Mas porque o pai não deixa comer um chocolate ou não compra um brinquedo no shopping.


Quando a vergonha que a mãe sente é mais forte que a raiva, se a birra ocorre em público, ela acaba atendendo ao desejo da criança antes que a gritaria tome conta do local. O filho venceu. A criança aprendeu que a birra pode ser uma arma para fazer valer suas vontades, principalmente em ambientes em que possa expor a mãe.

Na birra, a criança transforma seu desejo supérfluo em algo essencial e necessário à sua vida. Esse desejo não educado, adquirindo força de instinto, busca a saciedade. Mas logo passa e dá lugar a um novo desejo, deixando a criança constantemente infeliz, pois ela, assim como seus pais, confunde saciedade com felicidade.

Mas quem ensina a criança a fazer birra?
Para chegar à birra, a mãe foi indisciplinada: proibiu e cedeu, proibiu e cedeu. Desrespeitou as próprias proibições, ensinando o filho a fazer o mesmo: desrespeitá-la.

A birra pode ser apenas uma fase, mas se a mãe sempre ceder aos caprichos do filho essa fase pode demorar muito a passar.

Quando a criança nasce é totalmente dependente, mas à medida que vai crescendo vai se tornando ao poucos mais independente, aprende a sentar, se esticar para o objeto que deseja, diz que não com a cabeça, aprende a balbuciar e a falar, aprende a engatinhar, a andar, comer sozinha, enfim, aprende paulatinamente tudo que é preciso para se tornar um indivíduo autônomo enquanto cresce e se desenvolve física e cognitivamente. Porém algumas mães indisciplinadas sentem-se obrigadas a continuar fazendo pela criança aquilo que esta já é capaz de fazer sozinha.

Sabemos, porém, que quando a única realização de uma mulher é ser mãe, arcando com todos os custos, fica difícil aceitar que o filho está crescendo e permitir que ele comece a trocar de roupa sozinho, a escolher a própria comida. É como se ela , de repente, fosse privada do benefício de servir ao próprio filho. Nesse momento é possível que comece uma briga de benefícios que mais tarde tende a converter-se em uma briga de custos.

Em determinado momento, quando a mãe estiver sobrecarregada com a chegada de outro filho ou com atividades diversas, será obrigada a deixar de trocá-la ou alimenta-la. Só que a criança não está acostumada a se virar sozinha, pois não foi isso que a mãe lhe ensinou.

O filho, que nunca precisou arcar com nenhum custo para ter seus benefícios, exceto abrir a boca, vai protestar, exigindo que a mãe sacie suas necessidades de qualquer maneira.

A briga de custos é briga da escravidão. A mãe torna-se escrava das necessidades ou vontades do filho, e este torna-se impotente, portanto, escravo do atendimento da mãe.

Mães saudáveis preparam os filhos para arcar com as suas responsabilidades. Com o passar dos anos, elas vão delegando à criança o poder de se cuidar. Essa autonomia pode dar ao filho a sensação de felicidade. A auto-estima dele cresce ao perceber que pode realizar seus desejos. Felicidade ou saciedade que se ganha “de mão beijada” não aumenta a auto-estima porque dispensa exatamente a capacidade de crescer em liberdade.

Uma mãe pode e deve atribuir tarefas diferentes a cada filho. Nem todos os filhos são iguais. Cada um desenvolve um tipo específico de capacidade. Por isso, os pais não devem se sentir mal quando favorecerem um em detrimento do outro. A preocupação excessiva com a eqüidade é um dos mecanismos que conduzem um indivíduo a agir como um folgado. Sabe como? Quando a mãe se sente na obrigação de realizar pelo filho algo que ele já tem capacidade de executar sozinho apenas porque o faz também pelo filho menor. Então, aquele que já é capaz deixa de exercer sua capacidade e, dentro de si, registra a seguinte mensagem: “Eu posso fazer, mas não vou, pois minha mãe também faz pelo meu irmão”. Tratando-se de filho único: “Eu sou capaz, mas por que vou fazer se minha mãe faz por mim?”.

O mecanismo de folga é, no começo, uma malandragem consciente que em pouco tempo transforma-se em hábito. Com freqüência, a criança não se acha folgada. Sente-se, ao contrário, lesada quando a mãe deixa de fazer o que sempre fez. Esse é o cúmulo da folga: ela passa a cobrar a realização de diversas tarefas como se fosse obrigação da mãe.

As mulheres atribuladas de hoje, que se sentem culpadas por uma série de razões, facilmente entram nesse jogo: favorecem as cobranças dos filhos. Há um casamento perfeito aqui: de um lado, a mãe sufocada pela culpa sente-se obrigada a fazer aquilo que, se avaliasse bem, poderia concluir que não é mais sua função; do outro, o filho folgado. Em outras palavras, é o casamento do folgado (que deixa de fazer) com o sufocado (que se sente obrigado a fazer).

Nas últimas décadas, a mulher emancipou-se e ganhou destaque socioeconômico, profissional e cultural, mas na grande maioria o instinto materno, a inclinação para ocupar-se da perpetuação da espécie, ainda fala mais alto que todas as suas conquistas. Em virtude desse instinto é que ainda hoje as mulheres sentem-se culpadas por ficar longe dos filhos.

Essa mãe, pós-moderna, tem sempre a impressão de contrariar seu instinto materno ao negar algo aos filhos. Por mais adequado que seja um não, ainda assim custa-lhe muito aplicá-lo.

No seu desejo de proteger, de educar e de criar o filho, toda mãe se incomoda muito ao vê-lo sofrendo, principalmente passando fome ou frio. A criança tem que comer de qualquer jeito. Se o filho recusa o alimento que está no prato, a mãe sempre dá um jeito de oferecer um substituto. É justamente aí que ela começa a perder o equilíbrio relacional e a submeter-se aos caprichos infantis, confundindo vontade com necessidade. No entanto, é preciso enfatizar o seguinte: a criança que aprende a comer é mais livre, e portanto, mais feliz. Uma criança feliz não aprisiona a mãe a seus caprichos.

Ficar sem comer um dia não mata a criança; pelo contrário, pode educá-la. A obsessão materna de saciar a fome do filho a qualquer custo o impede de aprender o ciclo vital fome/saciedade, essencial para criar a disciplina relativa ao ato de comer.

E onde fica o pai nisso tudo?
Durante muito tempo, a Psicanálise culpou apenas a mãe. E não poderia ser diferente: no tempo de Freud, quem realmente cuidava das crianças era a mulher. Mas hoje aquele furor antimaterno pode ser dividido entre as duas figuras que compõem o casal.

O pai também é responsável quando o filho se torna um folgado porque nenhuma dinâmica se perpetua se não houver conivência, mesmo que por meio do silêncio. Diante de situações em que o filho é um folgado e a mãe uma sufocada, o silêncio do pai funciona como aprovação do comportamento do filho.

Na experiência do autor, os casos mais complicados de delinqüência ou dependência de drogas recebem uma contribuição enorme da falta de ação do pai. Em última instância, o pai é o grande controlador e a mãe, a grande apoiadora. Quem dá a palavra final do sim ou não, paga ou não, bate ou não é o pai. Tapa de pai é muito diferente de tapa de mãe.

Os delinqüentes sociais nada mais são que os folgados familiares que transformaram o abuso entre as paredes do lar em abuso externo. Não há nenhuma proibição na família, eles fazem tudo o que querem. Daí levam essas vontades para fora de casa e querem saciá-las a todo custo, principalmente quando não há ninguém por perto para inibir, como a presença de uma testemunha, da polícia ou de um fiscal.

8 comentários:

  1. Maravilhoso..obrigada pela oportunidade de ler..isso tudo...

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  2. Gostei do trabalho, muito bem feito.Parabéns.

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  3. A verdade dói...ainda assim após ler me sinto impotente muitas vezes diante de tais situações...como fazer esse redemoinho de situações de conflito mudarem de rumo??? Necessito de ajuda nem que seja de uma palavra amiga...Patrícia Flores /e-mail:p.floressilva@gmail.com

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  4. UM PENSAMENTO MEU : nao deixe crescer no filho tao amado habitos, defeitos ,mau- criaçoes,etc.. que amanha ou depois vao ser defeitos q nem vc mesma vai suportar O MAU DEVE SER CORTADO PELA RAIZ n estou falando de agressao mas sim de acreditamos no nosso potencial de pais e educadores . A criança n nasce pronta ela vai se construindo entao mais autoridade c amor muito carinho e correçao nos momentos certos Falo por experiencia propria tenho duas crs de 5 e 3 anos q graças a deus e aos pais sao crianças q conhecem limites

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  5. muito bom mais muitas vez nos pais erramos mas na intenção de acerta....

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  6. Adorei o que li, e espero que eu consiga passar para eles tudo que aprendi...por que é dificil na ausençia do pai vc de certa forma acaba que estragando seu filho, pra ate mesmo tentar suprir a falta do pai,então erramos na intenção de acertar mesmo...mais muito obrigada por me dar a oportunidade de ler este livro..

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  7. Quando li, percebi a importância dos pais na criação dos filhos, que ambos devem olhar na mesma direção e chegar a um ponto que sem o dialogo é impossível educar os filhos.

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  8. Não existe forma correta de como educar ou disciplinar uma criança, à partir de um ser ser único. Como pais erramos, acertamos, e de certa maneira estamos aprendendo a ser pais, pelo motivo de não vir um manual de instruções.

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